USP denuncia omissão das autoridades nas aldeias indígenas do Acre. Onde foi parar tanto dinheiro destinado a estas comunidades?

Embora tenham ocorrido avanços nos direitos dos povos indígenas, as condições de saúde vividas por eles ainda são bastante precárias no Norte do País. É o que mostram os resultados de uma pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, que traz depoimentos de lideranças indígenas do Estado do Acre. Para o jornalista, cineasta e autor da pesquisa Valdir Baptista, que registrou depoimentos em vídeos, os problemas enfrentados pelos indígenas naquela região são de toda ordem. Vão desde o saneamento básico, higiene, segurança alimentar e falta de água potável até dificuldades logísticas de socorro às populações isoladas na floresta, dentre outros. “O descaso é generalizado”, afirma Baptista, que é professor de Comunicação das Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam).

A coleta de dados revelou a situação de negligência das autoridades públicas ante a situação vivida pelos povos indígenas naquela região. Quatro caciques das etnias Huni Kuin, Katukina do Acre e Kuntanawa – esta última quase extinta durante os massacres do ciclo da borracha na região – gravaram seus relatos, alguns destes, inclusive, envolvendo a morte de seus próprios familiares. O resgate da etnia Kuntanawa se deu a partir de memórias das mulheres indígenas que escaparam do genocídio e se casaram com seringueiros.
A pesquisa apontou ainda as dificuldades para acesso ao tratamento médico em função do isolamento das aldeias em florestas e rios, que precisam ser atravessados de barco pelos habitantes durante longas horas de viagem.

O cacique Osmildo Silva da Conceição, da etnia Kuntanawa, contou em seu depoimento o drama que viveu para buscar socorro ao filho. O menino acabou morrendo em função de um quadro de hepatite que se agravou por falta de tratamento adequado, pois morava em uma aldeia afastada da cidade. Ele estava na cidade quando soube que seu filho não estava bem. Demorou para conseguir dinheiro para custear o combustível de barco para sua volta para casa. Na aldeia, viu o filho piorando a cada dia. Embora tenha recebido atendimento médico básico em suas terras, o pai considerava que o diagnóstico não tinha sido feito corretamente e o medicamento que tomava não daria nenhum resultado. Tentou dar remédios que ele mesmo preparava com raízes e plantas medicinais que retirava da floresta, mas não obteve a aprovação da mãe da criança.

Pensou em voltar à cidade para buscar atendimento médico, mas era preciso encontrar alguém que pudesse arrumar combustível para abastecer o barco. Além disso, surgia uma nova preocupação: chovia muito na região e o rio estava sem navegação. Os dias foram passando, o menino piorando e, em pouco tempo, morreu. Fato semelhante, segundo o cacique, foi vivido por outras famílias que perderam seis crianças dentro de um único mês.

De acordo com o pesquisador, os depoimentos possuem peso social para impulsionar mudanças de políticas públicas de saúde para os povos indígenas. Baseado na vivência e nos relatos dos líderes, um dos problemas identificados foi a omissão do Estado em qualificar agentes da própria comunidade para intervenções de saúde. Caso essa ação fosse tomada, “pessoas da própria comunidade ultrapassariam dificuldades culturais e de comunicação entre as equipes do Sistema Único de Saúde e os povos indígenas”, conclui Baptista.
A pesquisa faz parte da tese de doutorado Registro audiovisual da omissão do estado brasileiro nas políticas públicas de saúde segundo depoimentos de lideranças indígenas, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública, em 2016, sob orientação do professor Paulo Rogério Gallo.

 

 

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