Polarização entre direita e esquerda no Brasil, protagonizada por PT e PSDB, tem dias contados após 30 anos

Pela primeira vez em cerca de 30 anos, a corrida presidencial de 2018 pode encerrar um longo ciclo de polarização entre direita e esquerda no Brasil, protagonizada por PT e PSDB. Diante do fracasso e da ampla reprovação a modelos econômicos defendidos pelas alas, analistas políticos apostam que nenhum dos candidatos correrá o risco de apresentar uma plataforma de viés ideológico claro, com medo da rejeição eleitoral.

Essa ambiguidade ganha ainda mais força se considerado o cenário imprevisível da atual conjuntura política. O nome do ex-presidente Lula é considerado a única opção do PT com chances reais de se eleger ao Planalto, mas depende de uma decisão da Justiça Federal em segunda instância para viabilizá-lo. É também aguardado um desfecho para a situação do presidente Michel Temer (PMDB), cuja continuidade do mandato será submetida à Câmara dos Deputados em agosto. Outras denúncias decorrentes da operação Lava Jato podem complicar lideranças partidárias.

O racha interno no PSDB, partido que, historicamente, mais rivalizou com o PT nas eleições, também tem causado indecisões na legenda. O senador Aécio Neves segue licenciado da direção nacional. Os correligionários estão divididos quanto ao desembarque do governo Temer. E, na linha presidencial, disputam a candidatura o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito de São Paulo, João Doria.

“A eleição de 2018 será diferente de todas as outras. Desde 1989, os debates ideológicos eram claramente definidos. Há fortes críticas tanto ao modelo mais liberal quanto ao projeto de fortalecimento do Estado”, avaliou o cientista político Sérgio Praça, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro.

Para o especialista, a linha centrista deve prevalecer entre os discursos da maioria dos candidatos. Foi assim que o presidente da França, Emmanuel Macron, triunfou nas urnas, ao se conectar com o desejo de novos ares e renovação moderada de milhões de franceses. Apesar de liberal, o ex-banqueiro aproveitou-se do descontentamento da população e derrotou adversários nacionalistas e populistas, incorporando ideias de ambos os campos.

Expoentes. Os partidos brasileiros, mesmo os mais tradicionais, já ensaiam tons mais amenos nas posições ideológicas e um mea-culpa, em preparação para contornar a rejeição dos brasileiros com a política e a economia do país. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que surge como alternativa do PT caso Lula seja impedido de disputar a eleição, fez críticas a seu partido e ao PSDB, que conduziram o país nas últimas décadas. Em entrevista recente, Haddad afirmou que PT e PSDB, cada um a sua maneira, mantiveram um ao outro reféns do atraso.

A rixa histórica entre petistas e tucanos dá a tônica ao discurso de Marina Silva, possível candidata da Rede Sustentabilidade à Presidência. Em segundo lugar nas pesquisas de intenção, ela tem-se consolidado como maior expoente na linha centrista. “A minha proposta foi de sempre defender as decisões necessárias. Precisamos de reformas, mas não necessariamente estas. Temos que buscar um meio-termo para modernizar e ajustar as contas públicas, sem pesar nas costas do trabalhador”, afirmou.

Pesquisa. A mais recente pesquisa Datafolha coloca Marina Silva (Rede) liderando todos os cenários no primeiro turno, sem a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Eleição pulverizada, como em 1989

Histórico. Na eleição de 1989, 22 candidatos disputaram o cargo de presidente da República. Esse cenário pode repetir-se em 2018, segundo a previsão de especialistas. “Essa eleição será mais parecida com a de 1989 do que com as eleições que se seguiram, sempre polarizadas entre as duas forças políticas (PT e PSDB). Provavelmente, teremos um número maior de candidatos”, avalia o cientista político Paulo Roberto Figueira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Corrida. Naquele ano, concorreram ao cargo máximo do Executivo nomes como Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB), Fernando Gabeira (PV), Ronaldo Caiado (PDS) e Enéas Carneiro (Prona).

Resultado. Apesar da quantidade recorde de candidatos, a eleição ficou polarizada entre Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Collor acabou vencendo no segundo turno. “Tanto em 1989 quanto em 2018 são muitos candidatos, mas naquela época havia uma definição ideológica muito clara, que no ano que vem a gente não vai ter”, afirmou o professor da FGV, Sérgio Praça.

Novo partido, Podemos tenta driblar “dicotomia terrível”

O senador Álvaro Dias, ex-PSDB e ex-Partido Verde (PV), filiou-se ao estreante Podemos para lançar-se candidato em 2018. A nova sigla tem o objetivo de ser uma alternativa aos partidos tradicionais, rechaçando a polarização entre os modelos de direita e esquerda. Em recente entrevista concedida à rádio Super Notícia FM, o senador explicou que pretende propor um novo modelo de gestão pública.

“O Podemos vai eliminar essa dicotomia terrível, esse confronto da esquerda com a direita, vai oferecer uma alternativa mais responsável à população, num momento em que os partidos estão destruídos. Os partidos se transformaram em organizações criminosas, em lavanderia de dinheiro sujo. Nós queremos estar distantes desse cenário de corrupção, de incompetência política e de descrença que se generalizou no país”, disse.

Na carona da rejeição aos políticos clássicos, também surgem nomes para ocupar espaço nas candidaturas que se vendem como antipolíticas em 2018. O Datafolha incluiu em suas mais recentes pesquisas o juiz federal Sergio Moro, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa e até o apresentador Luciano Huck.

Discussão passará por reformas

Na linha contrária à tendência centrista, o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Wagner Romão enxerga uma polarização bem definida entre os candidatos às eleições presidenciais de 2018. Segundo ele, a questão é saber como os temas da esquerda e da direita aparecem na vida real da população.

Romão afirmou que as reformas trabalhista e da Previdência, defendidas pelo governo de Michel Temer (PMDB) e pela ala centro-direita para tirar o país da crise econômica, devem pautar o discurso eleitoral dos candidatos à Presidência.

“Se a gente puder considerar que quem é contra as reformas, tais quais elas estão sendo feitas, é do campo de esquerda e, por outro lado, quem é favorável, de um campo mais à direita, então esse viés ideológico vai ser manter na campanha do ano que vem”, avaliou.

Mesmo com a reforma trabalhista já aprovada pela Câmara dos Deputados, o professor Wagner Romão acredita que o tema vai manter-se forte até o ano que vem em função da permanência da crise econômica. “Vai ser possível se fazer, inclusive, algum tipo de avaliação sobre o impacto do que já foi esse processo da reforma trabalhista”, disse.

O professor ponderou que poucos candidatos aparecerão com o discurso de unir de forças, mas que deve fracassar, como em outras campanhas.

“O Eduardo Campos (PSB) já tentou em 2014. Depois da morte dele, a Marina Silva permaneceu com essa ideia de juntar os melhores, em pensar em um governo com os melhores, seja à direita, seja à esquerda, seja do PT, seja do PSDB, seja do próprio partido dela, a Rede. Mas, na minha opinião, essa polarização veio para ficar no cenário político brasileiro”, observou.

Debate. Além das reformas, outro tema que deve permanecer forte no discurso eleitoral em 2018, segundo Wagner Romão, é o combate à corrupção e a posição quanto à Lava Jato.

Fonte: O Tempo

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