Em 20 anos, desde que a Cia de Selva passou a monopolizar a chamada verba institucional para propagandas do governo, nunca houve preocupação em informar ao público como, de fato, os milhões destinados a este fim são repassados mensalmente aos veículos de comunicação do Acre. Isso só seria possível se houvesse, de fato, interesse em cumprir a Lei de Acesso à informação por meio de um plano de mídia – instrumento obrigatório sem o qual nenhum jornal, site, TV, etc..poderia receber um centavo sequer.

O plano serve para descrever o público alcançado, as estratégias, os objetivos, as atividades e a maturação de todos os canais de comunicação dentro de uma estratégia de marketing. Mais que isso: justificar, através de provas, que o serviço foi executado. O objetivo é ter um planejamento das modalidades de transmissão, uma garantia real de que a empresa contratada tem direito apenas a valores correspondentes ao que executou. Habitualmente, jornalistas recebem dinheiro em espécie, na porta dos gabinetes ou por emissários indicados, por serviços avulsos, sem que esta verba seja contabilizada. Nos governos passados, milhões eram manuseados ao bel prazer do governador e seus assessores imediatos, na que ficou conhecida “verba secreta” – uma pouca vergonha que, finalmente, decidiram extinguir (pelo menos na teoria).

Há anos, o Portal Transparência do Governo do Acre lança apenas o que chama “prestação de contas” dos contratos de publicidade – informações inconsistentes em que aparecem valores genéricos e os respectivos fornecedores. Não explicam quanto é repassado por empresa. A nossa reportagem publica abaixo a lista dos tais “prestadores de serviços”, e os valores pagos pelos diversos tipos de mídia.Na galeria de imagens, é possível notar exemplos de “prestação de contas” referente a dezembro de 2011 e abril de 2018. Os valores pagos aos meios de comunicação do Acre são flutuantes, geralmente a maior, de mês para mês, ano a ano, em consequência dos inúmeros aditivos contratuais – uma prática corriqueira na questionável relação do governo com a Cia. de Selva, a mesma que faz a propaganda político partidária do Partido dos Trabalhadores nas eleições.

Chama atenção, ainda, contratos extraordinários amarrados com a autarquia Detran, com valores distintos dos que são formalizados com a Secretaria de Comunicação. Toda a campanha educativa de transito em 2017 custou R$ 2 milhões. No mesmo ano, a Cia de Selva teve contrato renovado para gerenciar R$ 10 milhões da famigerada mídia institucional.

Associação criminosa

Os pagamentos seriam gerenciados pela agência de publicidade acusada pelo Ministério Público Federal por associação criminosa e fraude à execução. Uma ação datada de 2016 revela que os valores fraudados com o uso de empresas laranjas de familiares do empresário Narciso Mendes (dono da TV e Jornal O Rio Branco ) chegaram, à época, a mais de R$ 15 milhões. A reportagem do G1, assinada pela jornalista Iryá Rodrigues, destaca que o jornal “O Rio Branco” e a TV Rio Branco veiculavam publicidades para o governo do Acre e prefeitura de Rio Branco, porém os pagamentos administrados pela Companhia de Selva eram repassados para empresas de familiares do empresário. O esquema era usado para fugir das execuções fiscais da União em desfavor do jornal e da emissora de TV, entendeu o MPF.

O empresário reagiu. Disse que a denúncia era caluniosa e negou qualquer participação do seu grupo no caso. “A Companhia de Selva é uma empresa idônea. Todos os processos de pagamento que a empresa fez a qualquer veículo de comunicação do estado do Acre responderam exatamente aos mesmos trâmites. Eventual questionamento que possa ser feito, vamos responder, esclarecer e colaborar com quem de direito”, disse o marqueteiro Gilberto Braga, sócio da agência Companhia de Selva.

 

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