Por José de Anchieta Batista

QUALQUER DIA OUTRA BUNDA TE OCUPARÁ

Depois de vinte anos ocupando cargos no governo do estado do Acre, peguei meu matulão e voltei para minha condição original de simples aposentado. Durante este período, como titular ou adjunto, estive na administração de alguns órgãos do Estado, quais sejam: Secretaria de Administração e Patrimônio Público, Secretaria de Educação, Secretaria Executiva de Informática, Instituto de Previdência, além de órgãos da administração indireta, como COHAB, ACREDATA, CODISACRE, FADES, COLONACRE e CILA, ditas em extinção.

Alguém poderia me perguntar qual foi o meu saldo, ao término destes 20 anos.

– Juro que não sei. Sempre fui zeloso e exigente com tudo o que me proponho fazer. Com certeza, em nenhum desses lugares foi diferente. É óbvio que, seja qual for o governo, vários impedimentos sempre estão presentes para bloquear, ou mesmo dificultar, avanços. Assim, perde-se mais tempo retirando obstáculos do caminho do que propriamente caminhando. Porcarias oriundas dos manuais da politicagem, muitas vezes impedem que se atinjam melhores resultados, obrigando-nos a continuar rodando o mesmo filme todos os dias. Forças externas, e até mesmo internas, impõem, repetidas vezes, inversões de prioridades quanto às necessidades e melhorias de vida de nossa gente. Constatei que tudo depende daquilo que, implantado, mesmo que não seja mais urgente e mais necessário, signifique uma maior captação de votos. E por aí vai.

Diante de tudo isso, fiz o que realmente pude. Tenho minha consciência tranquila de que aquilo que precisava ser feito, se não o fiz, foi meramente pela impossibilidade de executar.

O sabor do poder depende de quem seja você. O ritual acontecido em suas entranhas pode tanto ser fascinante, quanto causar-lhe nojo em certos momentos. Embora uma parte da sociedade olhe você com raiva, isso é compensado pela outra parte que quer carregá-lo nos braços; o conforto e as mordomias cercam você; chovem convites para eventos luxuosos; você não vai ao banco porque o gerente vem até você; novos amigos se apresentam, embora falsos e temporários; os “colunas-moles” (assim os denomino) só faltam beijar-lhe os pés, num jogo de aproximação de patéticas reverências. Os interesseiros estão em todos os lugares; Se você não tomar cuidado, esquece as suas obrigações e se entrega tão somente a sentir-se um rei, com bajuladores lhe refrescando a vida, num mundo de inócua fantasia. É aí que os puxa-sacos juramentados que vivem ao derredor, começam a falar, mentirosamente, somente o que lhe agrada ouvir. Isso inevitavelmente vai empurrar sua gestão para o brejo.

Uma das coisas que me envaidecem hoje em dia é não ter, em momento algum, deixado o veneno do poder subir para a cabeça, como um patrimônio meu. Nunca me fiz pavão nem andei de “sapato alto” para me sentir acima das pessoas. Na realidade foram 20 anos buscando servir, o que em alguns casos não é bem compreendido, sempre que os interesses pessoais estão na contramão da lei.

Desejo concluir este artigo pondo em foco aqueles que entram em depressão quando termina o mandato ou o cargo para o qual tenha sido nomeado. Passar duas décadas no poder e adoecer quando ele termina é ter interiorizado uma posse sobre o que em momento algum lhe pertenceu. Não existe usucapião. A cadeira ocupada pertencia e continua pertencendo ao povo.

Não foi uma só vez que teatralizei meu desapego à cadeira em que estava sentado. Minha secretária, a Samira, que me acompanhou por todo esse tempo, ria-se a valer quando por algum motivo, levantava-me bruscamente, punha meu dedo em riste, apontava para aquela espécie de “trono”, e bradava com voz muito firme:

– Tu não me pertences! Qualquer dia, outra bunda te ocupará!

Era verdade. Entrou um novo governo, fui-me embora,.. e ela não me fez falta.

  • Aposentado

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