Com contratos suspensos, R$ 330 milhões em castanha apodrecem nas florestas do AC

Ate o inicio da pandemia de Coronavírus no acre (17/03) apenas 20% da castanha do Brasil, safra 2019/ 2020, havia sido desembarcada nos portos de Rio Branco para beneficiamento nas indústrias alimentícias da capital acreana e, posteriormente, ser exportada.

A produção este ano, em torno de um milhão e cem mil latas, algo equivalente a onze milhões de quilos ou 11 mil toneladas de amêndoas, corre o risco de se estragar na floresta se as relações comerciais internacionais continuarem suspensas pelos próximos seis meses – devido às medidas de isolamento social impostas pela necessidade mundial de frear a disseminação vírus.

Essa fortuna, avaliada em R$ 333 milhões, foi toda amontoada pelos extrativistas em lotes espalhados por debaixo da floresta acreana no inicio do ano, nas regiões de prevalência dos castanhais. E agora aguarda comprador para ser transportada para a cidade.

A maior cooperativa acreana de beneficiamento de castanha esta com as compras da matéria prima suspensas desde o dia 15 do mês passado, quando seu presidente, Manoel Gameleira, de 81 anos, contraiu o Covid.

O superintendente da cooperacre, Manoel Monteiro, explica que a cooperativa teve que colocar todos seus colaboradores em quarentena e a partir daí não retornou com as atividades de compra da castanha inatura, por observar o desinteresse dos clientes internacionais na renovação dos contratos de entrega do produto industrializado.

“Nós usamos as emissoras de rádio para avisar aos nossos sócios que a compra da produção esta suspensa, sem data para retomada. Solicitamos que eles retirem a castanha da floresta e estoque nos galpões comunitários das associações de extrativistas. O problema é que nem todas as regiões possuem espaço para guardar o produto e a castanha só dura no máximo de seis a oito meses na casca”, lamenta.

A partir do período de seis a oito meses de colhida na floresta a castanha do Brasil cria uma espécie de fungo em sua amêndoa e se torna dispensável para o processo de industrialização e consumo humano.

Quando a Cooperacre  suspendeu suas atividades de compra da castanha, no mês passado, ela já tinha adquirido duzentas mil latas do produto de seus associados, mas cerca de vinte mil latas ainda não tinham sido transportadas para seus armazéns na cidade.

Esse restante que falta esta na lista dos compromissos de contrato de compras que a cooperativa ainda tem esperança de arcar por se tratar de clientes associados que tem prioridade no calendário de entrega da produção.

“O próximo passo da gente seria comprar a produção dos extrativistas independentes. Mas com os contratos de revenda do produto suspensos no mercado internacional, o jeito é dispensar a oferta de entrega da produção inatura que chega todos os dias”, explica o superintendente da cooperativa.

Segundo Manoel Monteiro, a prioridade nesse momento é tentar segurar os poucos consumidores que restaram.  ”A gente está se esforçando para manter uns três contratos que nos restaram e daqui para frente é aguardar para ver o que Deus reservou para a gente”, disse.

Dados do Forúm Estadual de Desenvolvimento e Economia do Acre apontam que a castanha do Brasil, ou castanha do Pará, como também é conhecida, se constitui no principal produto de exportação do Estado no período de Janeiro a Abril, quando anualmente ocorrer o pico da safra.

Já, já, os rios acreanos vão diminuir o volume de suas águas devido à chegada do verão e o escoamento da produção de castanhas dos extrativistas ribeirinhos não será mais possível este ano.

Para os que moram em ramais e estradas vicinais fica a incerteza se o mercado consumidor vai abrir as portas em tempo ágil de aproveitamento do período de estiagem na Amazônia para escoamento da produção.