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sexta-feira, outubro 30, 2020

“Vi muitos abusos sexuais em grupos da Ayahuasca”, diz antropóloga

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Carlos Minuano

Colaboração para o TAB

A cientista Bia Labate se diz uma vítima de condições desafiantes no Brasil. A antropóloga brasileira foi morar na Califórnia (EUA) em 2017. Segundo ela, o sucateamento da ciência a levou a isso. O problema não se resume à falta de subsídios: sua área de atuação está se tornando inviável no país.
A cientista, que há 20 anos pesquisa psicodélicos, é autora e organizadora de diversos livros sobre o tema e criou o Instituto Chacruna de Plantas Psicodélicas Medicinais. Em meio a uma explosão global do interesse por essas substâncias para fins diversos, de medicinais e religiosos, a ONG quer educar o público sobre alucinógenos e tornar mais acessível o saber acadêmico.

Além da publicação de artigos curtos, outro objetivo da instituição é promover uma ponte entre o mundo dos rituais xamânicos, dos povos indígenas, e o campo emergente da ciência psicodélica. A maioria da equipe é formada por antropólogos e cientistas sociais, que procuram explicar para médicos, psicólogos e profissionais as raízes históricas desse movimento e os usos potenciais.
A ONG também se dedica à inclusão de negros, mulheres, indígenas e população LGBTQI+ no mainstream da ciência psicodélica e ao auxílio a vítimas de abuso sexual em grupos de ayahuasca. “Venho acompanhando o tema há mais de 10 anos. Infelizmente, fui testemunha de muitos casos”, lamenta. O assunto cresceu e se impôs como uma necessidade institucional. Labate recebeu apoio, mas também muita crítica, inclusive de seguidores das religiões ayahuasqueiras. “Muita gente ainda acha que roupa suja se lava em casa.” A seguir, ela conversa com o TAB sobre seu trabalho de inclusão psicodélica.
TAB: Há muitos casos de abuso sexual nos grupos de ayahuasca?
Bia Labate: Sim, existem. Acho que acontecem porque as vítimas estão numa situação vulnerável. Muitas procuram a ayahuasca por traumas, e algumas, ironicamente, por problemas sexuais. Esses grupos envolvem relações hierárquicas e de poder, que já são clássicas e conhecidas. Pessoas que estão na liderança muitas vezes tomam vantagem dessa situação frágil, da confiança que as pessoas colocam no facilitador, guia, líder, xamã, e se aproveitam. Como a gente sabe, não é uma coisa específica do mundo da ayahuasca. Mas o que vimos nesse meio são dirigentes se aproveitando do fascínio, da magia, do encantamento da ayahuasca. Ocorrem também falsas relações consensuais, em que mulheres são envolvidas nessa relação de aprendizado e às vezes são favorecidas, ganham posição de mais poder dentro da comunidade, passam a ser assistentes do líder, fazem viagens e cerimônias especiais sozinhas com ele. É como uma troca de serviços sexuais por favores e benefícios religiosos.

TAB: Algumas mulheres podem se confundir, achar que tiveram alguma culpa no abuso…

BL: Muitas mulheres demoram para perceber essas dinâmicas, e existe a vergonha de falar sobre isso. Frequentemente, a pessoa se envolve numa relação dessas contra a vontade, insegura, sem saber direito o que está acontecendo, e pode demorar para perceber o abuso. Parte do nosso trabalho é encorajar as mulheres a falar, a resistir, e encontrar outras mulheres que sofrem o mesmo tipo de problema para, assim, terem coragem para começar a mudar a situação.

TAB: Pode contar um pouco sobre as ações do Instituto Chacruna?

BL: Criamos algumas ações para aumentar a consciência em torno desse problema. Reunimos especialistas, mulheres vítimas ou sobreviventes, como se fala aqui, e todo o espectro de personagens que participa do circuito de grupos ayahuasqueiros. Elaboramos um guia de conscientização e prevenção do abuso sexual no circuito de consumo da ayahuasca, com dicas que começamos a divulgar. Distribuímos gratuitamente essa publicação em várias conferências. Uma pessoa da nossa equipe esteve divulgando esse trabalho em Iquitos, uma espécie de meca do turismo xamânico no Peru. O guia foi distribuído em agências de turismo, para representantes do governo, consulados, restaurantes, retiros. Esse material foi traduzido para 11 idiomas e está disponível na internet. Acompanhamos as estatísticas de consulta e nos impressiona o volume de acessos, se tornou muito popular. Também criamos um manual de recursos legais que incluem informações sobre as leis relacionadas ao abuso sexual nesses países, e uma lista de organizações confiáveis com as quais as pessoas podem entrar em contato, caso ocorram abusos. Também lançamos a série de artigos “Sex, Power & Psychedelics” (sexo, poder e psicodélicos), que explora a dinâmica cultural relacionada a sexo e a poder, à medida que eles se manifestam em pesquisas psicodélicas, ciência e comunidades. A ideia é criarmos uma conversa pública, uma reflexão conjunta sobre esse tipo de desafio.

TAB: Houve resposta dos grupos de ayahuasca a essas iniciativas?

BL: Geraram bastante polêmica, principalmente entre os setores mais conservadores do mundo da ayahuasca, que não acham adequado divulgar esses problemas, por causa do estigma em torno da bebida, da ilegalidade em vários países. Outras pessoas que são contra a ayahuasca usaram os incidentes de abuso para atacá-lo, dizendo que se trata de um alucinógeno perigoso que causa manipulação e está ligado a crimes sexuais, o que obviamente não é verdade. Até algumas feministas foram críticas. Enfim, foi um trabalho bem difícil, mas a gente também recebeu apoio e nos meios digitais muitas pessoas elogiaram e compartilharam, e seguimos recebendo relatos de várias mulheres que sofreram violência.

TAB: Quando vêm à tona assuntos como abuso e homofobia em grupos que usam ayahuasca, se fala muito em “passada de pano” para proteger a “obra” e o “chá”. É possível uma casa xamânica “curar” sem encarar essas sombras?

BL: Como existe em alguns grupos uma opressão sistêmica e profunda, o processo de tomada de consciência pode demorar muito tempo. Além das dinâmicas de poder, de suscetibilidade e vulnerabilidade, também existem questões culturais. Algumas dessas religiões da ayahuasca são altamente patriarcais, machistas, hierárquicas. Às vezes, é parte da cultura local um predomínio masculino, então misturam-se várias questões, formando um cenário complexo.

TAB: As denúncias que estão surgindo representam uma mudança de comportamento?

BL: Assim como aconteceu com o movimento #MeToo, as questões de sexualidade e de gênero vão entrando na cena política do movimento da ayahuasca. Os próprios pesquisadores raramente entravam nessas questões. Muitos se dedicaram a estudar os benefícios terapêuticos dos psicodélicos, proteções legais, conservação da espécie, aspectos mitológicos ou históricos, artísticos e simbólicos, e pouca atenção foi dada na academia para questões de raça, gênero e sexualidade. Agora, o movimento da ayahuasca está se politizando, e essa discussão está chegando aos grupos religiosos e entre acadêmicos. É nosso papel empurrar as fronteiras, politizar a ayahuasca, criando discussões críticas.

TAB: Que avaliação você faz das leis relacionadas ao abuso sexual e da rede de proteção às vítimas no Brasil? Funciona?

BL: A gente sabe que, assim como direitos das mulheres e violência doméstica, essas questões não são priorizadas e recebem pouca atenção, verbas e suporte institucional. Acho que o caso do João de Deus foi uma espécie de divisor de águas, no sentido de escancarar essa discussão no Brasil. Na esteira dele apareceram discussões envolvendo vários líderes da ayahuasca. Um deles, o mais famoso, é o Prem Baba — que negou todas as acusações, contratou uma grande equipe de advogados, fez uma espécie de escudo para proteger sua reputação e fama e não teve coragem de assumir os erros e pagar por eles. Outro caso foi o do Gê Marques, daimista de São Paulo. Existe, no momento, um processo aberto contra ele, que usava não só ayahuasca, mas também MDMA e LSD em reuniões privadas com mulheres em motéis e na casa dele. Esse caso foi particularmente frustrante, porque ele levantava muito a retórica de que o Santo Daime é machista e patriarcal e que as pessoas precisavam ser menos reprimidas e mais abertas para viver a sexualidade. Com isso, aproveitou-se de várias mulheres. Foram mais de 20, delas algumas menores de idade.

TAB: Certamente, muitos abusadores seguem em atividade.

BL: É chato e triste ver que pessoas ligadas a esses líderes acobertam a situação e tem dificuldade em assumir e reconhecer que o seu mestre, o seu guru, cometeu aqueles atos — porque tiveram aprendizados, bênçãos e curas com esses líderes. Depois, quando confrontado com essas sombras, não conseguem aceitar esses problemas. Infelizmente, muitas mulheres também ajudam a acobertar essas relações, principalmente se forem ligadas a esses líderes ou dependentes financeiramente deles. Mas essas discussões estão se abrindo. Cabe a nós continuarmos falando, não ter medo, nos apoiando mutuamente. E também a nós, pesquisadores, é preciso continuar estudando, promovendo evidências e reflexão crítica. Estamos fazendo uma pesquisa no site do Chacruna sobre experiências de abuso, diretas ou indiretas, por meio de relatos. Mais de 1.300 pessoas responderam.

TAB: Há hoje um entendimento muito maior sobre essas substâncias?

BL: O Brasil é um dos pioneiros nas pesquisas com psicodélicos, fato que recebe pouca atenção aqui e no exterior. O país tem produzido pesquisa de ponta — em especial, devido à situação legal da ayahuasca, que dá um maior acesso aos pesquisadores. Recentemente, também foram realizados estudos promissores com LSD e MDMA. Dentro de uma iniciativa chamada Council for the Protection of Sacred Plants, que reúne etnobotânicos, advogados, pesquisadores, dedicados ao estudo e documentação sobre plantas psicodélicas, também organizamos um grande debate sobre o cacto peiote, uma espécie frágil e ameaçada, que demora para crescer e corre sérios riscos de extinção. E filmamos em 2019 a websérie documental “The Peyote Files” (em fase de pós-produção), no oeste do Texas (EUA), com o especialista em cactos e conservacionista Dr. Martin Terry. O MDMA pode ser regulamentado em 2022 e a psilocibina em 2023. É possível que o Brasil também avance. Estamos ainda no começo do que que se convencionou chamar de “renascença psicodélica”. O Brasil tem um papel importante a exercer como líder, podendo fazer um diálogo maior entre o mundo espiritual e o mundo da ciência.

TAB: Há quem veja riscos de que o uso das terapias psicodélicas seja norteado pelo interesse de grandes corporações. Acredita que o avanço dos tratamentos deve seguir um caminho atrelado a modelos lucrativos?

BL: Ainda é cedo para dizer. Espero que sejam regulamentados e avancem a partir de interesses coletivos e globais, que tenham como prioridade a cura do indivíduo e que isso se sobreponha aos lucros, promovendo um tratamento humano acessível a todos — independentemente de raça, gênero, classe social, orientação sexual. Cabe começar a discussão agora. Onde não há cura para todos, não há cura para ninguém. Só podemos pensar em tratamentos psicodélicos uma vez que todos sejam incluídos e contemplados.




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